segunda-feira, 7 de agosto de 2017

No meio do caminho havia uma flor

                           
  No meio do caminho havia uma flor



O ponteiro do relógio parecia que havia parado marcando quatro horas da manhã.
O tempo parecia não passar, era lento como uma infindável fila do caixa do supermercado ou dos bancos no dia pagamento; só que minha paciência era maior.
Não era a primeira vez que Letícia voltava tarde do plantão. Teoricamente o plantão que devia terminar as 19h, que somado as horas extras terminaria por volta de 23horas; mas 4 horas da manhã?
Não sei explicar o que acontece com meus pensamentos.
 Sim, as vezes nosso cérebro nos prega peças, como no meu caso em imaginar a própria esposa embaixo dos lençóis com um algum médico bem-dotado — financeiramente falando —; ideias parasitas que de forma pulsátil corroíam minha alma, aceleravam meu corpo, em especial meu coração e minha respiração, deixando meus sentidos alertas, como um lobo selvagem que se aproxima em silêncio da presa.
O fato era que meu casamento não andava bem. O peso das cobranças se acumulavam em minhas costas, tornando-me na imagem de Quasímodo.
Estava sentado no sofá da sala, olhando para o chuvisco da televisão que automaticamente havia silenciado, com a emissora que saia do ar.
Como seria ele? Rico, mais forte do que eu?
Não me considero um fracassado, apesar de defender criminosos e coloca-los na rua. Não sei explicar esses sentimentos. Talvez uma afinidade, pois todos nós temos nosso momento de fúria.
A história de minha vida se resume em dor, perdas de meus pais em minha infância e o acidente de meu tio quando eu tinha nove anos, que me deixou preso no carro com ele morto ao meu lado, com um pedaço de ferro atravessado no tórax, até que corpo de bombeiros chegasse e liberasse minhas pernas, me resgatando do carro e a seguir o corpo de meu tio.
A segunda parte de minha vida, chama-se orfanato. Ela era dividida em momentos de bullying, exploração e abuso.
Já a terceira parte, foi quando conheci Letícia e junto com ela a chance de ter um “lar” para morar. Nunca quis ter filhos. Odeio crianças.
No início do casamento até que foi bom, apesar de nunca conseguir dizer um Eu te amo verdadeiro. O amor que sinto por ela e pelo mundo são como peças de polímero, frias em uma exposição de arte moderna.
Foi então que ouvi a porta se destravar.
A sala estava escura. Estava sentado na poltrona e desliguei a TV, deixando um breu total.
Vi que a luz automática do corredor de meu apartamento se acendeu. Letícia abriu a porta, carregando os sapatos e sorrateira passou pela sala e foi para o quarto de hospedes.
Eu era um vulto. Estava vestido de preto e mesmo que ela quisesse ela não me enxergaria.
Aprendi que todos que todos os criminosos, cedo ou tarde cometem um deslize, e talvez o maior erro de Letícia, foi ir para o banho no quarto de hospedes e deixar a bolsa sobre a cômoda do quarto.
Vasculhei a bolsa e lá estava em meio a diversas mensagens, uma especial do neurocirurgião...
“Amanhã, depois do plantão, te quero outra vez, minha fina flor.
Com amor, Fernando.”
As palavras diziam por si só.
Escondi por trás da porta e quando ela saiu do banho, com uma velocidade que minhas aulas de Muai tai me proporcionavam, a joguei contra a banheira, fazendo-a quebrar o pescoço. Uma morte rápida, que ela não teve tempo para entender.
Havia conquistado minha liberdade. Faltava apenas Fernando, o neurocirurgião.
Fui até a sala e chamei uma ambulância, sem antes deixar o vidro de shampoo derramar sobre o piso de granito.
Ao chegarem, ela estava sem vida e uma médica apiedou-se deste pobre homem que acabara de ficar viúvo, por uma fatalidade do destino. A polícia me interrogou, mas foi fácil despistá-los, ainda mais quando se conhece a lei.
O fato que no dia seguinte no velório de Letícia, lá estava ele. O neurocirurgião Fernando, que se aproximou com a cara mais vil. Mal sabia ele, que enquanto ele estava no velório o carro estava sendo sabotado. As vezes colocar criminosos na rua, faz com que esses bandidos fiquem lhe devendo favores.
Ele se aproximou com a cara mais deslavada.
— Luciano, sinto por sua perda. — Me disse colocando as mãos em meus ombros. — Sou colega de sua falecida esposa e trabalhávamos juntos. Ela era uma grande amiga.
— Compreendo — respondi me segurando para não quebrar os dentes do filho da puta, e derrubá-lo sobre o caixão de minha ex-mulher. Mal sabia que ele tinha os minutos de vida contados.
— Luciano, sua esposa era uma pessoa fantástica. Ela estava me ajudando em um romance com uma médica e amanhã ela iria mandar um buque de rosas para Aline. Deixei até o cartão que ela colocaria no arranjo. Só que ontem, chegou um baleado e ficamos até tarde na cirurgia. Ela falou tempo todo de você. Disse que lhe amava e quando chega tarde ela prefere dormir em outro quarto pois sabe que você tem uma vida corrida. Agora, olhando para ela, realmente fico a pensar sobre o quanto somos pequenos diante do mundo e que a morte pode nos visitar quando menos esperamos.
Bem, naquele momento não havia mais o que dizer. Fiquei por um tempo, pensativo. Há determinadas atitudes que quando tomamos não tem mais volta.
Fiquei atormentado por pensamentos que me corroíam. Sabia que a solidão e a angústia se tornariam minha melhor companheira, pela eternidade.
Horas depois, sepultando a terceira e melhor parte de minha vida, recebi a notícia do acidente de carro fatal do neurocirurgião. Havia me esquecido que o carro havia sido sabotado...

Bem, depois disso, hoje já não sei mais nem mesmo quem sou eu.

Hermes Marcondes Lourenço

domingo, 2 de julho de 2017

Reunião 28/06/2017


Reunião do dia 28/06/2107 no prédio do CRM-MG, sob a presidência da Dra. Leda Caporale, foi calorosa em especial com a leitura de contos de nossos queridos sobramistas e cortesias a parte, Dr. Serufo, nos agraciou com Vinho, queijo, suco, pão de queijo e outros deliciosos quitutes, para tornar a noite ainda mais especial.







domingo, 28 de maio de 2017

A Estrada Maldita

Era uma noite calma e fria. Tão calma como uma igreja vazia e fria como um iceberg no meio do oceano, onde o silencio era uma mistura destes dois lugares.
Voltava para a cidade de Belo Horizonte. Compromissos inadiáveis me aguardavam em minha empresa pela manhã. Gostava de viajar de madrugada, ainda mais quando tinha que passar por uma estrada de terra de uma cidadezinha do interior de Minas Gerais – uma forma perspicaz de evitar de comer a poeira deixada por outros carros durante o dia.
A estrada era iluminada pelos faróis de meu carro e pelo pisca-alerta que havia acionado, pelo menos até onde eles podiam alcançar. O restante a lua gorda e soberba se encarregava de clarear.
Havia estacionado o carro próximo a um pequeno barranco, devido a uma devastadora vontade de urinar. Infelizmente o frio faz isso com as pessoas, é claro que não posso omitir o chá de hortelã que minha avó Justina me fez tomar.
Vovó odiava que eu viajasse de madrugada.  Vinha sempre com a velha história — mais velha do que ela — de fantasmas, almas penadas, corpo seco, além é claro do perigo de assalto.
É lógico que não acreditava nas histórias da minha avó e duvidava de que algum criminoso se aventurasse a realizar um assalto na madrugada em uma estrada deserta.
Bem, o fato era que eu havia achado o lugar ideal para urinar. Seria o “mijo” perfeito, se não fosse por alguma pane elétrica que fez com que as luzes de meu carro ficassem piscando como se estivessem em curto circuito, antes sequer de eu colocar para fora da calça meu objeto de poder e encontrar o alívio que almejava.
Antes que eu voltasse para o carro, as luzes do meu veículo se apagaram por completo e o frio pareceu se intensificar.
O manto perene da lua — após minhas pupilas se adaptarem — traziam a imagem da estrada e seus arredores.
Caminhei em direção a meu carro. Sabia que não portava nenhuma lanterna comigo. Minha salvação seria meu celular, mas ao retirá-lo do bolso, percebi que ele simplesmente havia parado de funcionar.
Foi então que ouvi uma voz. Confesso que meu coração acelerou, pois jamais imaginava encontrar uma alma viva no meio da madrugada.
“Ei moço! Voismicê me discurpa, mas o sinhô ta atrapaiando o cortejo.”
Ao olhar para traz, havia um senhor de aproximadamente uns cinquenta anos. Vestia um terno preto destes antigos com um chapéu da mesma cor. Usava um cavanhaque bem aparado, num rosto enrugado.
Bem, tive a certeza de que não era um criminoso, caso contrário já teria me atacado. Um boia fria talvez… Mas bem vestido? Um cortejo de madrugada? Não fazia sentido…
“Me perdoe, mas um cortejo neste horário? Foi isso mesmo que o senhor me disse?”
“Sim sinhô. É só o cê oiá no finar da istrada”.
De fato, ele tinha razão. Quando olhei para o horizonte, diversas pessoas caminhavam a curtos passos em nossa direção. Algumas a cavalo, enquanto outras pessoas carregando velas acesas, acompanhavam o defunto .
O que me chamou a atenção era que ao invés do caixão, o cadáver estava numa rede que fora colocada em um longo pedaço de madeira, sendo carregado em suas extremidades por dois homens fortes, que também se vestiam de preto e usavam chapéu.
Jamais imaginava que as pessoas eram sepultadas em pleno século XXI dessa forma.
Em respeito fui para a beira da estrada acompanhado do estranho homem.
“Quem é o falecido?” Perguntei curioso. As vezes podia ser algum conhecido de minha avó.
“Num é falecido não”. Falou o estranho. “ É falecida, i vai pru inferno”.
“Ela devia ser muito ruim…”  Disse enquanto olhava a rede com o defunto que se aproximava.
“Ela feiz pacto cum o tinhoso para que o netinho dela tivessi muito dinheiro, num demoro pra ele vim cobra o acordo.” Falou o séquito homem.
“Se ela era tão ruim assim, por que esse tanto de gente no cortejo?”  Perguntei, enquanto as primeiras pessoas passavam devagar em minha frente.
“É que nóis qué fica livre dela dipressa e tê certeza de que ela foi interrada. O Cê que vê ela? Acho que voismecê deve conhece.”
Era uma oferta assustadora no meio da madrugada. Fui tomado por uma terrível onda de curiosidade.
Acompanhado do estranho senhor, aproximei-me da rede que conduzia o cadáver.
O cortejo parou. Aproximei-me do defunto.
Ao afastar o tecido da rede, minhas pernas perderam a força e minhas mãos ficaram frias e trêmulas enquanto meu coração parecia que iria sair pela boca. Queria gritar mas minha voz não saia. Parecia que havia engolido uma pedra que ficara entalada em meu estômago, enquanto a urina quente escorria perna abaixo.
Na rede estava o cadáver de minha querida avó.
Quando olhei para o estranho, seu rosto transformou-se na imagem de uma caveira — dessas parecidas com as dos piratas — e em um instante, todos desapareceram ao mesmo tempo que as luzes de meu carro se acenderam e o celular de meu bolso começou a vibrar.
Guardei o ocorrido em segredo. Tive medo de contar para alguém o que havia acontecido. Talvez pudessem achar que tivesse ficado louco, mas os fatos me perturbavam, até que seis dias depois, vítima da explosão de um botijão de gás, minha querida avó veio a falecer.
Hermes Marcondes Lourenço 

terça-feira, 9 de maio de 2017

Convite


É com imensa satisfação que convido a todos para a palestra de nosso confrade Dr. José Carlos Serufo, sobre "O Almocafre na história da Mineração", a ser realizada no dia 13 de Maio de 2017, sábado, às 10:00h, no Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, na sede da Rua dos Guajajaras, 1268, "Casa de João Pinheiro".
Contamos com a participação de todos.


sexta-feira, 21 de abril de 2017

Ô MAR SALGADO!

Ô MAR SALGADO!

Até que enfim. O patriarca com toda a família iria à praia; não conheciam o mar. Sonho em anos de planos e economias. O auge era Guarapari/ES. Chique, uai! Também, da malvadeza das areias; “Se não causam, precipitam aquele câncer encoberto e tapeado que aparece e mata quem de ousar naquela bomba atômica, mãe e madrasta da desgraça”. Na boca pequena: “Fulana chegou de Guarapari. Na semana seguinte começou mal estar e não aturou um mês; Morreu. Você acredita minha filha? De câncer!” Ou: “Uma amiga da minha prima...” Quando não: “A prima de minha amiga, moça nova. Você acredita que ela passou férias em Guarapari. Chegou toda alegre, fotografias na praia com o noivo. Menina!... Passou mal. Os médicos: - É Câncer. Não aturou um mês”. Do maldizer o velho aquilatou; inveja.
Então, comprou velha Veraneio de caber toda família. Despendeu cara mecânica durante um ano. Mas, as bagagens e comida para tanta gente? Ajuntou mais cobres a usada carreta de acoplar na Chevrolet. Acomodou a mulher, filhos, noras, genros, netos e bagulhos. Chispou.
Na praia, depois de degustada a água marinha, a velha precipitou; Morte súbita. Médico, amigo de infância de um filho, morava lá; Atestou o óbito. E agora? Translado do corpo; caríssimo! Orçamento familiar empenhado nos próximos anos. Na pobreza, as dificuldades são maiores. Enterrar a velha em Guarapari. O velho arapuou:
- De todo, uai! Minha velha aqui? Lá nascemos, casamos, constituímos família e seremos enterrados. Ela morreu de alegria. Sonhava com o mar. Confirmar se aquele borbotão era, mesmo, água salgada. Queria experimentar e passar férias na praia. Ela volta comigo, no fundo da carreta. Colocamos as tralhas por riba. Passamos nas barreiras e ninguém vai dar conta.
- Pai, isso é crime. É perigoso. Se a polícia pega, vai nos encravar!...
- Temos o atestado do médico e o corpo. Não temos dinheiro e ninguém vai pagar o traslado. Minha velha não vai ficar aqui. Corro o risco.
De noite, por mais segura falta de fiscalização, tomaram a estrada, carro vomitando gentes, apesar da vaga cedida pela vó, agora na carreta. Carpido trecho, o motorista determinou:
- Ao café, antes do sono. Não posso cansar nem o pai dirigir, com tanta emoção.
Na paragem convencional, cheia de veículos e gentes, todos desceram. Ao voltarem ao carro...
- Cadê a carreta, gente?
Roubada. E, agora? Como queixar à polícia? O velho:
- Se a gente der queixa, vou preso. Aí encrava, mais. Além da queda, coice!...
De emoção, susto e aperto o velho trancou a caixa; ele tinha uma fraqueza no bronze. Aí, tiveram outro trabalho. Voltaram com mais despesas e o velho, enterrado na própria terra.

Quanto à velha, até hoje, a família não sabe o destino da carreta nem do corpo nem se ela foi enterrada. Só sabem que, naquele ano foram férias de realizar o sonho; Conheceram a praia e confirmaram; ô mar salgado!...

quinta-feira, 9 de março de 2017

Diz a lenda

Diz a lenda...

O criador operava a criação. Quando de um ser, muito, mais se esmerava. Fê-lo forte, vigoroso, tolerante e persistente, imbatível, mágico e, mais que tudo, o mais belo. Deu-lhe, ainda, a capacidade de cuidar, edificar, perdoar, amar e enfim, construir o mundo. Acima de tudo, doou-lhe o poder da sedução e de gerar a vida, com amor. O assistente do divino ponderou: Ó Senhor, isso não é imprudência? Não sobrecarregaste os dons a esse ser? Tens o projeto de outro, seu semelhante. O que sobrará ao outro, de parelha?  O Criador voltou-se ao assistente: Este ser será único na minha criação. Não haverá igual. Nem tentarei fazê-lo. É por ter o projeto de outro, minha imagem e semelhança, que fiz este. Também, como eu, este será muito amado e desprezado, ignorado, mal entendido, motivo de paixões e de ódios, de paz e milagres e também, de guerras. Será muito estudado e não compreendido, motivo de seminários e teorias, de loas, mentiras e verdades, de agradecimentos, reconhecimentos e grandes depreciações. Pois, como eu, terá meus próprios dons. É a partir dele que farei o homem, minha imagem e semelhança. E será objeto de especulação sem jamais ser entendido. Terá nomes em expressão da sua magnitude e tolerância, da sua capacidade de ser como eu e viver entre os homens. Será chamada em Sânscrito, de MARYÁH = a pureza, a virtude, a virgindade; em Egípcio será MRY = amar; em Hebraico será MIRYAM = a senhora, a soberana; também será MARIA = mar de amargura, a forte, a que se eleva, a rainha do mar; em aramaico assírio será MARYAN, derivado das palavras assírias Yamo Mariro =  oceano azedo, oceano ácido. Em Nagô, no Candomblé, será YÊMANJÁ, de, na língua indígena, ser a mesma YARA, no sincretismo religioso, a IMACULADA CONCEIÇÃO = a mãe das águas, a rainha do mar, a rainha da fonte da vida, a protetora das águas e dos homens. Este ser é o mesmo em todos derivados da suposta compreensão desse admirável, infindável amigo em amor. Só ele suportará incólume, todas as vicissitudes da vida e será eternamente MULHER, a MÃE, e, sobre ela se alicerçará toda sociedade humana. Só ela é capaz de mudar o mundo, como se nada estivesse fazendo. A mulher é a mãe do meu filho muito amado; mãe de cada homem, da criança gerada e que nasce dela, do amor gerado para engrandecer a mim e a minha criação. Ela não é a minha filha muito amada. Nada disso. Mas, se fores humilde, de bom coração e atento à vida, compreenderás sutilmente, quem eu sou.

 Josemar Alvarenga

                                                                  
VENDA NOVA/BH, 8/3/2017